Recentemente, li um artigo no Brazil Journal, escrito por Lucas de Aragão, que aborda “Um País que não confia em si mesmo”. Já havia tratado do tema em 2023 em um artigo que publiquei no Linked in sobre um estudo realizado pelo BIS. O texto do Lucas argumentou com precisão uma dor estrutural do nosso mercado: o Brasil funciona, em larga medida, como uma sociedade de baixa confiança. Mas o insight mais estratégico para o ambiente de negócios não é a constatação sobre a nossa suspeita em relação à corrupção. O ponto central é a distinção clara entre a desconfiança moral e a desconfiança operacional.
O brasileiro não desconfia apenas porque acredita que o sistema é desonesto; ele desconfia porque, fundamentalmente, não acredita que o sistema funcione e tenha capacidade de entrega. A desconfiança operacional questiona a eficiência contínua das instituições. Em um cenário onde a confiança é baixa, as instituições tornam-se inevitavelmente mais frágeis, exigindo fiscalização constante, o que faz com que o sistema passe a operar com muito mais atrito, mais burocracia e uma grave falta de previsibilidade.
Como CSO da PortData, vivendo o dia a dia do mercado transacional — focada em operações de M&A, incorporação imobiliária e mercado financeiro —, afirmo que essa “desconfiança operacional” dita as regras do jogo e eleva drasticamente o custo do capital nas empresas brasileiras que, ao longo do processo de captação de recursos, gastam e demoram mais para acessar recursos mais caros que pares internacionais.
O atrito invisível no “Marco Zero” das operações
Em transações de alto valor, a premissa padrão de qualquer incorporador, banco ou fundo de investimento é operar sob a ótica da desconfiança. Quando uma incorporadora analisa a viabilidade da matéria-prima do seu negócio — o terreno — ou quando uma instituição financeira estrutura uma esteira de financiamento e concessão de crédito, partimos do princípio de que os dados estão pulverizados e de que poderá haver passivos documentais ocultos que precisam ser levantados em um processo quase que investigativo.
Como a cooperação vira exceção nesse ambiente, a validação de conformidade passa a exigir um esforço contínuo e exaustivo. Esse atrito tem um preço altíssimo e mensurável. Cada dia que um projeto de incorporação fica travado em uma diligência documental lenta, ou a cada semana que uma esteira de crédito perde aguardando a consolidação de certidões, o custo de oportunidade corrói a rentabilidade do projeto.
O mercado financeiro e imobiliário exigem agilidade estratégica. No entanto, esbarramos na lentidão de um ecossistema de documentos que não foi desenhado para ser integrado ou eficiente. É exatamente nesse ponto que o mercado tradicional comete o seu maior erro de gestão de capital: a tentativa de compensar a desconfiança sistêmica com o esforço humano.
A armadilha das soluções individuais e o massacre operacional
O artigo do Brazil Journal aponta que, diante de instituições disfuncionais, a sociedade brasileira adota estratégias individuais de defesa, onde a cidadania passa a ser a capacidade de não precisar dos serviços públicos. No mundo corporativo e transacional, assisto a uma dinâmica muito semelhante de defesa individual.
Para mitigar o risco gerado pela desconfiança operacional, as empresas tentam construir estruturas internas de verificação manual. Elas contratam profissionais de alto gabarito e os alocam em tarefas estritamente operacionais. Criam equipes inteiras dedicadas a acessar dezenas de sistemas governamentais instáveis, baixar documentos um a um e estruturar dados brutos em planilhas para tentar formar uma visão de risco da operação.
Isso me parece um equívoco primário de alocação de recursos. Profissionais brilhantes e altamente motivados buscam um trabalho enriquecedor, que demande inteligência analítica e foco em negócios. Eles querem diagnosticar o risco, debater a viabilidade comercial de um ativo e atuar diretamente na estratégia que protege o capital da companhia.
Quando o mercado impõe esse modelo de auditoria burocrática, o que vemos é a criação de um verdadeiro massacre operacional. O capital intelectual da companhia é desperdiçado em tarefas repetitivas que destroem o engajamento. A retenção de talentos em operações complexas despenca quando o contexto estratégico do trabalho é substituído pela coleta manual de informações. A verificação e o monitoramento devem ser executados integralmente por tecnologia, jamais por equipes humanas.
A tecnologia como infraestrutura sistêmica
Não podemos mudar a cultura de desconfiança do país em curto prazo, mas temos a obrigação de mudar a infraestrutura com a qual operamos. Se o nosso mercado exige verificação minuciosa e fiscalização rigorosa de dados para garantir a higidez das transações, a única resposta sustentável é a tecnologia sistêmica.
Quando falamos do mercado financeiro, de fundos de investimento e de esteiras de crédito imobiliário, a exigência é o escrutínio massivo e a alta volumetria. O modelo de consulta manual e avulsa não é apenas ineficiente para essas instituições; ele é um gargalo que inviabiliza o crescimento da carteira.
Para players que lidam com milhares de análises simultâneas, a eficiência real não vem de acessos pontuais a sistemas. Ela vem da integração profunda. A tecnologia deve operar via API, conectando-se de forma imperceptível aos sistemas internos dos bancos e fundos, processando milhares de consultas e auditorias em frações de minutos. A inteligência transacional exige que os dados cheguem estruturados diretamente na mesa do decisor, sem atrito e sem necessidade de intervenção humana na fase de busca e estruturação.
A automação absorve a complexidade e a desconfiança operacional do ambiente externo, funcionando como uma barreira de proteção rigorosa para a operação. Dessa forma, a mitigação de risco deixa de ser um funil lento executado por pessoas exaustas e passa a ser a engrenagem digital que acelera a esteira de contratação com segurança absoluta.
O novo padrão de eficiência transacional
Para que o Brasil se insira com competitividade no mercado global de capitais e atraia investimentos de alto valor, precisamos elevar o nosso nível de governança de forma urgente. O investidor de grande porte busca previsibilidade. Se não podemos oferecer um ambiente institucional integrado de imediato, temos o dever de construir uma infraestrutura tecnológica que neutralize essa ineficiência.
A viabilidade de uma operação estruturada, o lucro de uma incorporação e o sucesso de uma esteira de financiamento dependem da velocidade com que tomamos decisões seguras. Não faz sentido medir a produtividade de uma transação pela quantidade de horas que uma equipe gastou em diligências manuais. A produtividade corporativa de alto nível é medida por entrega, resolução e impacto no momento da contratação.
A economia da desconfiança cobra um preço alto de quem insiste em operar de forma analógica em transações complexas. Superar essa barreira tecnológica é a única forma de garantir que o talento humano seja focado estritamente no que gera receita.
A questão que deixo para quem estrutura grandes operações hoje é: a sua infraestrutura tecnológica já resolve o caos do mercado em escala, ou a sua equipe de especialistas ainda atua como refém da burocracia para conseguir fechar um negócio?